A perspectiva de um planner sobre a crise hídrica no Brasil

Com a escassez de água em São Paulo, repercutindo em todo o mundo, o Brasil está repensando sua abordagem em relação a infraestrutura hídrica.

Para uma matéria de duas partes que estamos publicando esta semana e na próxima, entrevistamos Pablo Lazo, líder de planejamento urbano da Arup Brasil, e o Arq.Futuro, uma plataforma de reflexão e discussão com foco em urbanismo, sobre suas impressões em relação a situação atual no país mais populoso da América do Sul.

Abaixo: Pablo Lazo sobre a água, planejamento, governança e criatividade.

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Que soluções estão sendo desenvolvidas em resposta à crise hídrica de São Paulo? Como o governo e a comunidade reagem?

Nos últimos anos, as principais cidades do Brasil começaram a perceber que a infraestrutura existente para o abastecimento de água, de águas residuais, e também de energia, precisam ser mais integradas com a estrutura de planejamento urbano. Este é um desenvolvimento muito promissor.

A maioria das grandes cidades do Brasil precisam reorientar seu planejamento através de uma abordagem holística. Ao integrar os diversos sistemas de infraestrutura em seu planejamento, eles estarão em uma trajetória mais sustentável para melhorar inúmeros serviços que estão agora em declínio.

Essas cidades agora entendem que devem ter uma visão metropolitana. Elas não podem se concentrar em suas fronteiras, pois agora são megacidades; e têm outras cidades que lhes são inerentes. Com isso, essas grandes cidades perceberam que precisam mudar sua abordagem e começar a pensar sobre como multi-agências podem colaborar.

SaoPaulo_FWH_GoogleMaps

Região metropolitana de São Paulo

De certa forma não só o Brasil, mas também outros países da América Latina, tem uma visão de futuro no que diz a respeito a relação entre o design e a água. As pessoas estão percebendo cada vez mais que precisam pensar sobre a água espacialmente, não só de um modo abstrato ou conceitual. Você tem que ser capaz de imaginar espaços físicos que as pessoas vão utilizar de diversas maneiras. Então, a infraestrutura hídrica precisa fazer mais do que apenas lidar com a coleta de águas pluviais. Em um ambiente urbano, isso pode proporcionar alguns benefícios em termos de espaço público, saúde pública, entre outros aspectos da cidade — que exige uma abordagem criativa.

Se pegarmos a energia como exemplo, em São Paulo, os dois principais rios fazem parte do sistema de coleta de águas residuais. Contudo, eles poderiam fazer mais; o movimento da água do rio que se move ao longo da cidade também pode proporcionar alguma geração de energia. Eu não estou pensando sobre um fornecimento de energia em grande escala, porém poderia existir alguma sobreposição, e poderia haver ganhos de eficiência através de uma maior integração com os sistemas existentes.

Águas residuais desaguam no Rio Tamanduateí

Quais propostas interessantes para melhorar a relação entre água e planejamento urbano você já viu no Brasil?

A primeira é a iniciativa de planejamento que começou em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Essas cidades já entenderam que eles precisam incorporar elementos de água como parte de sua estratégia para o espaço público aberto, por exemplo, alterando o uso da terra ou reabilitando determinadas áreas. Mas isso não é apenas recreativo e uma questão de uso de terra, isso também agrega para a estratégia de resiliência para as partes da cidade. Curitiba e São Paulo contribuem para o sistema global de gestão de águas pluviais.

De certa forma não só o Brasil mas também outros países da América Latina adotam ações com visão de futuro.

A segunda é sobre ser mais esperto em como trabalhar dentro do ciclo de água. Os governos locais querem aumentar o tratamento de águas residuais nas cidades. Isso é uma ação muito positiva. Estamos esperando para ver o que acontece lá. O sucesso dessas iniciativas dependem de como o setor público no Brasil define as ideias; eles precisam ter o envolvimento do setor privado para fazê-las funcionar.

Como terceira, eu gostaria de mencionar sobre as cidades que estão melhor preparadas para desastres naturais e com estratégias urbanas mais resilientes. Eles estão cientes de que a inundação é um risco em algumas cidades brasileiras e que precisam de sistemas que podem colaborar quando surgem essas questões. E esta é a razão plea qual estão dando mais atenção ao planejamento urbano.

Quem são “eles” nestes casos? É o governo da cidade que geralmente conduz estes desenvolvimentos? Qual é a sua relação com os governos regionais e nacionais, e o setor privado?

Esse é um dos grandes desafios do Brasil. No momento as agências governamentais e as empresas do setor privado estão tentando solucionar estas questões em três diferentes níveis — municipal, estadual e federal. E a cooperação é uma das coisas mais difíceis de se alcançar, por causa da fragmentação dos partidos políticos do Brasil, mas também porque não há nenhuma estratégia clara abrangente sobre como começar a transformação que todos os habitantes reconhecem como necessário.

Rio Tietê em São Paulo

Em São Paulo, que é provavelmente o estado mais progressista, há uma iniciativa a nível municipal para criar uma entidade que irá abordar a gestão da água na cidade de São Paulo e na região metropolitana, e que vai integrar membros ds governos federal e estadual, entidades que vão conduzir estas estratégias nos níveis mais elevados.

Mas porque estas cidades estão em uma situação tão crítica com sua infraestrutura hídrica corrente, pessoas de todos os níveis reconhecem que o modelo precisa ser mudado. Eles sabem que precisam pensar no futuro.

Questões ou cometátios para Pablo Lazo? Email pablo.lazo@arup.com.

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