Para solucionar a crise hídrica em São Paulo, colaboração é a palavra-chave

Com a escassez de água em São Paulo repercutindo em todo o mundo, o Brasil está repensando sua abordagem em relação a infraestrutura hídrica.

Para uma matéria de duas partes, entrevistamos o Arq.Futuro,  uma plataforma de reflexão e discussão com foco em urbanismo, e Pablo Lazo, líder de planejamento urbano da Arup Brasil, que comentam a situação atual do país mais populoso da América do Sul.

Abaixo, Tomas Alvim e Laura Greenhalgh do Arq.Futuro discutem a relação entre governança, a participação do cidadão e a cultura.

*

Você pode dar a sua perspectiva sobre a situação atual da água em São Paulo?

Tomas: Enfrentamos um período de seca no Brasil, devido a isso estamos diante de uma situação dramática em termos de água.

Isso não é um problema contínuo em São Paulo. É uma interrupção de horas por dia, ou em alguns casos dias por semana, que está acontecendo de forma diferente em diversos bairros. Está chovendo de forma mais consistente nas últimas semanas, ajudando a reabastecer os reservatórios da cidade.

A crise de água que começou em São Paulo e está se expandindo para outras cidades, resultado de um problema muito grave e comum no Brasil: a falta de planejamento urbano. Nós somos um dos países mais urbanizados do mundo — 84% das pessoas vivem em cidades. Porém, nós não preparamos uma infraestrutura para suportar o grande afluxo de pessoas que se deslocaram do campo para as áreas urbanas nas últimas décadas.

SaoPaulo_HOR_FlickrAHLN_CC2

São Paulo

O governo agora está trabalhando muito, investindo para encontrar soluções para manter o abastecimento de água em São Paulo. Mas o outro lado do problema é muito mais árduo, é o entendimento das pessoas. A relação cultural com a água tem que mudar drasticamente em cidades de todo o mundo, e em São Paulo principalmente. Isso é uma enorme transformação. A população está realmente começando a compreender o quão precioso é a água e repensar seus padrões de consumo.

Laura: Está cada vez mais claro que não há apenas uma solução para a escassez de água em São Paulo. Estamos começando a pensar em termos de um conjunto de ações.

Pela primeira vez, o governo de São Paulo está realmente investindo em inteligência humana para resolver o problema da água. Não é mais apenas os políticos que fazem estas decisões; são especialistas em água. Esta é uma notícia muito boa.

SaoPaulo_HOR_Flickrpaullsson_mlura_cc2

Torre residencial de São Paulo

A empresa estatal chamada SABESP atualmente administra programas de abastecimento de água e de águas residuais da cidade. Como é que a crise afeta esse modelo?

Tomas: Nós acreditamos que a governança é a questão mais importante no que diz respeito à água em São Paulo. A maneira que ele é administrado é realmente muito confuso.

A situação tem definitivamente melhorado nos últimos anos. No entanto, hoje em dia o presidente da SABESP e todos os funcionários são muito técnicos, pessoas científicas, como disse Laura. O governo convidou uma boa equipe em termos de estudos sobre a água, investigação e projetos intervencionistas. Só para ter uma ideia, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de São Paulo é o presidente do Conselho Mundial de Água.

Laura: Ele é o líder global neste setor.

Tomas: Esse é um movimento muito importante em termos de política. Mas há muito mais discussão acontecendo hoje sobre a estrutura de governança para as águas de São Paulo. A SABESP atualmente está contratada pelo governo municipal, que não tem voz direta nas decisões sobre água na cidade. O governo da cidade e o governo do estado não desempenham nenhum papel na gestão de água de São Paulo. O contrato entre o município e a SABESP é o maior contrato de abastecimento de água no mundo. E, claro, hoje em dia as pessoas estão repensando este sistema.

Nós desenvolvemos duas crenças cruciais sobre as cidades. Uma delas é a importância da participação do setor privado, o governo e a sociedade civil.

Você mencionou a necessidade de mudar as atitudes culturais sobre a água urbana. Você pode dizer mais sobre isso?

Tomas:  Através do trabalho que estamos fazendo no Brasil, nós desenvolvemos duas crenças cruciais sobre as cidades. Uma delas é a importância da participação do setor privado, o governo e a sociedade civil nas discussões sobre cidades. Você tem que reunir essas três partes para que as transformações urbanas sejam sólidas, progressivas. Essa é a nova tendência em todo o mundo, mas no Brasil em particular, e nós acreditamos nisso.

A outra crença é a importância da participação dos cidadãos, da cidadania, no Brasil. Devido à ditadura que passou, eu acho que nós perdemos essa noção de como um cidadão pode e deve trabalhar para melhorar sua própria cidade, seu bairro, sua rua e seu próprio edifício. Mas projetos bem-sucedidos exigem esse tipo de participação.

Humberto de Alencar Castelo Branco, o primeiro de uma série de ditadores militares para governar o país entre 1964 e 1985

A crise de água em São Paulo promoveu esse tipo de engajamento cívico. Hoje em dia, isso é claro como o público está começando a promover soluções e reduzir o consumo de água, apesar de que ainda há muito trabalho a fazer. Entretanto, nós acreditamos que essa cultura continuará crescendo, e por causa disso nós decidimos apoiar um projeto com o objetivo de limpar o Rio Pinheiros no próximo ano. Sabemos que não é um projeto de curto prazo, porque a limpeza do Rio é um enorme desafio. Mas é possível; acreditamos que se a população estiver mais consciente, saber que este é um problema que irá afetar a vida de todos, eles têm que participar dessa transformação.

pinheiros2_HOR_FlickrClaudia_Almeldacc2modified

Lixo nas margens do Rio Pinheiros

Outra questão extremamente importante é que o governo tem que modificar a maneira de comunicar sobre esses problemas, a fim de promover o engajamento público. O governo e a sociedade civil têm que estar conectados. Você pode ver que em projetos de sucesso no Japão, nos Estados Unidos, no Reino Unido e nos países mais desenvolvidos — a participação de toda a sociedade nesses transformações urbanas é crítica.

Um caso que temos que manter em mente: no ano passado, convidamos um pesquisador da Califórnia para vir a São Paulo. Quando ela voou, ela atravessou a cidade e viu o Rio, e quando ela concedeu uma entrevista para um dos jornais locais mais importantes, ela disse: “Eu estou vindo de um país, de um estado, de uma cidade onde há uma crise de água — porque vivemos no deserto. Acabei de chegar em uma cidade que está com uma crise hídrica, e vocês têm um rio. Como é possível não ter água?” Isso é um assunto importante para discussão.

FlickrAnaPaulaHirama_cc2

Rio Tietê

O Rio de São Paulo poderia prover diversas coisas para a cidade, como por exemplo, fornecimentpo de água, mas que não é o caso nos dias de hoje. E isso é algo que tem que ser discutido. Há uma PPP interessante a ser desenvolvida em São Paulo para trabalhar sobre esta questão. Outro item é como a cidade deve pensar em utilizar o rio para a regeneração urbana. O Arq.Futuro está investindo muito em uma parceria que considera esta questão. Estamos estimulando as pessoas a pensar sobre o rio desta forma.

O governo e a sociedade civil têm que estar conectados

Laura: Sim, nós estamos trabalhando com uma ONG chamada Águas Claras. O projeto é focado em um dos dois rios mais importantes da cidade. Nós acabamos de aprovar uma campanha com um slogan muito simples e direto: “Vamos limpar o Rio?”

Rio Pinheiros

Nós temos a intenção de colocar esta questão aos cidadãos, ao prefeito, ao governo, ao setor privado, a igreja, enfim a todos de modo geral. Este é o nosso slogan: “Vamos limpar o Rio?” Como uma pergunta. No futuro, será uma afirmação, mas agora isso é uma provocação.

Questões ou comentários para Tomas Alvim ou Laura Greenhalgh? Email tomas@bei.com.br ou laura.greenhalgh@bei.com.br.

Click here to read this post in English.

Print this post

Read More Articles
Writing contest!

May 4, 2017